top of page
Image by Vitaly Gariev

Avaliação
PEA

Avaliação Psicológica e Neuropsicológica da PEA — Nível 1 de Suporte em Adolescentes e Adultos

avaliação da Perturbação do Espetro do Autismo (PEA) é um processo clínico que permite compreender o funcionamento social, comunicacional, comportamental, emocional e sensorial da pessoa, explorar a presença de características compatíveis com PEA e avaliar o seu impacto nas diferentes áreas da vida.

Na adolescência e na idade adulta, algumas características podem ser pouco evidentes para quem observa de fora. A pessoa pode ter desenvolvido estratégias de adaptação e compensação ao longo dos anos, apresentar autonomia, estudar, trabalhar e estabelecer relações e, ainda assim, experienciar dificuldades significativas.

A avaliação procura compreender a história de desenvolvimento, as características atuais, as estratégias utilizadas, as necessidades de suporte e o impacto no quotidiano.

Quando realizar uma avaliação?

A possibilidade de PEA pode ser considerada quando existem características persistentes como:

  • dificuldade em compreender determinadas regras sociais implícitas;

  • dificuldade em iniciar, manter ou gerir algumas interações sociais;

  • interpretar de forma literal determinadas expressões ou ter dificuldade em compreender ironia, sarcasmo e indiretas;

  • preparar ou ensaiar mentalmente conversas e situações sociais;

  • rever repetidamente uma interação para tentar perceber o que aconteceu ou se algo foi interpretado de forma inadequada;

  • sentir dificuldade em perceber intenções, expectativas ou sinais sociais pouco explícitos;

  • sentir que as relações sociais têm muitas “regras não escritas”;

  • preferir interações individuais ou com poucas pessoas;

  • sentir necessidade de recuperar depois de períodos prolongados de interação social;

  • apresentar necessidade significativa de previsibilidade ou estrutura;

  • sentir dificuldade perante alterações inesperadas de planos ou rotinas;

  • apresentar interesses particularmente intensos ou específicos;

  • sentir dificuldade em interromper uma atividade de grande interesse;

  • apresentar sensibilidade aumentada ou diminuída a sons, luzes, cheiros, texturas, toque, alimentos ou outros estímulos;

  • sentir sobrecarga em ambientes com muitos estímulos simultâneos;

  • ter dificuldade em identificar ou comunicar determinadas emoções, necessidades ou estados internos;

  • conseguir responder às exigências académicas, profissionais ou sociais, mas à custa de um esforço significativo.

Estas características podem ter diferentes explicações e devem ser compreendidas no contexto global e na história de desenvolvimento da pessoa.

A avaliação permite explorar essas diferentes possibilidades de forma estruturada.

Quais é que são os objetivos da avaliação?

A avaliação procura construir uma compreensão integrada do funcionamento da pessoa, identificando características, dificuldades, recursos, estratégias de adaptação e necessidades de suporte.

Entre os principais objetivos encontram-se:

  • explorar a presença de características compatíveis com PEA;

  • compreender a história e evolução dessas características desde o período do desenvolvimento;

  • avaliar a comunicação e interação social;

  • compreender padrões de comportamento, interesses, rotinas e necessidade de previsibilidade;

  • explorar características relacionadas com o processamento sensorial;

  • avaliar o impacto no funcionamento académico, profissional, familiar, social e pessoal;

  • identificar estratégias de adaptação e compensação;

  • identificar necessidades de suporte;

  • considerar outras condições ou fatores que possam contribuir para as dificuldades;

  • identificar eventuais condições coexistentes;

  • orientar recomendações e os passos seguintes.

A avaliação procura obter uma compreensão clinicamente fundamentada do funcionamento individual e das dificuldades apresentadas.

Áreas avaliadas

De acordo com o motivo do pedido e as necessidades identificadas, podem ser exploradas diferentes dimensões:

  • Comunicação e interação social: reciprocidade social, comunicação verbal e não verbal e compreensão das situações sociais;

  • Relações interpessoais: desenvolvimento, compreensão e gestão de relações nos diferentes contextos;

  • Padrões de comportamento e interesses: presença de interesses intensos ou específicos, comportamentos repetitivos e formas particulares de envolvimento em determinadas atividades;

  • Flexibilidade e adaptação à mudança: resposta a alterações, imprevistos e necessidade de previsibilidade;

  • Processamento sensorial: sensibilidade ou resposta a sons, luzes, texturas, cheiros, toque e outros estímulos;

  • Autorregulação emocional: identificação e gestão das emoções e impacto no quotidiano;

  • Funcionamento adaptativo: autonomia e capacidade de responder às exigências da vida diária;

  • Funcionamento académico e profissional: impacto das características nos estudos, trabalho e responsabilidades;

  • Funcionamento familiar, social e relacional: impacto nos diferentes contextos e relações;

  • Estratégias de adaptação e compensação: formas desenvolvidas ao longo da vida para gerir ou compensar dificuldades;

  • Impacto funcional global: interferência das dificuldades no bem-estar e funcionamento quotidiano.

A seleção dos procedimentos e instrumentos é individualizada de acordo com o motivo da avaliação e as questões que necessitam de ser esclarecidas.

Critérios considerados na avaliação da PEA

A avaliação tem em consideração referenciais clínicos e diagnósticos internacionalmente reconhecidos.

A PEA é uma perturbação do neurodesenvolvimento, pelo que a história de desenvolvimento assume particular importância.

São consideradas duas grandes áreas de características:

  • diferenças persistentes na comunicação e interação social;

  • padrões restritos ou repetitivos de comportamento, interesses ou atividades, incluindo aspetos relacionados com necessidade de previsibilidade e processamento sensorial.

As características têm origem no período do desenvolvimento, embora possam tornar-se mais evidentes quando as exigências sociais, académicas, profissionais ou relacionais aumentam.

Também é necessário avaliar o impacto das características no funcionamento e considerar outras condições que possam explicar ou contribuir para as dificuldades apresentadas.

O que é que significa “nível 1 de suporte”?

O DSM-5-TR contempla níveis de suporte associados às características da PEA.

O nível 1 de suporte corresponde a situações em que as características provocam dificuldades clinicamente significativas e existe necessidade de suporte.

As necessidades podem ser diferentes nas várias áreas do funcionamento e variar de acordo com o contexto, as exigências e a fase da vida.

Por esse motivo, a avaliação procura caracterizar o funcionamento individual e as necessidades específicas de cada pessoa, para além da atribuição de um nível global de suporte.

Condições coexistentes e diagnóstico diferencial

Uma avaliação adequada considera também outras condições que podem coexistir com a PEA ou apresentar algumas manifestações semelhantes.

Entre as condições e dificuldades que podem ser relevantes encontram-se:

  • Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA);

  • Perturbações de ansiedade, incluindo ansiedade social;

  • Perturbações depressivas;

  • Perturbação Obsessivo-Compulsiva (POC);

  • Perturbações de tiques ou síndrome de Tourette;

  • Dificuldades específicas de aprendizagem;

  • Dificuldades de coordenação motora;

  • Perturbações ou dificuldades relacionadas com o sono;

  • Dificuldades relacionadas com a alimentação;

  • Outras condições do neurodesenvolvimento, psicológicas, psiquiátricas, neurológicas ou médicas relevantes.

A interpretação clínica procura compreender a origem e a função das diferentes manifestações, uma vez que características aparentemente semelhantes podem estar associadas a mecanismos distintos.

Por exemplo, uma necessidade de rotina associada à PEA e uma compulsão associada à POC podem parecer semelhantes externamente, mas correspondem a fenómenos clínicos diferentes.

Como é que é realizada a avaliação?

O processo é individualizado e pode integrar diferentes procedimentos, selecionados de acordo com a idade, história de desenvolvimento, motivo do pedido e necessidades identificadas.

Entrevista clínica e história de desenvolvimento

É realizada uma recolha detalhada de informação sobre desenvolvimento, comunicação, relações sociais, percurso escolar e/ou profissional, interesses, comportamentos, características sensoriais, dificuldades atuais e impacto no quotidiano.

Instrumentos psicométricos

Podem ser utilizados instrumentos específicos de avaliação das características associadas à PEA, bem como escalas e questionários dirigidos a outras dimensões relevantes para a avaliação.

Os resultados são interpretados de forma integrada com os restantes elementos clínicos.

 

Informação complementar

Sempre que seja clinicamente pertinente e possível, pode ser considerada informação fornecida por familiares ou outras pessoas significativas.

Podem também ser relevantes informações ou documentos relativos à infância e adolescência, como relatórios escolares, clínicos ou outros elementos da história de desenvolvimento.

 

Avaliação de outras áreas do funcionamento

Quando clinicamente indicado, podem ser avaliadas funções cognitivas, funcionamento emocional, atenção, funções executivas, comportamento adaptativo ou outras áreas relevantes para compreender o perfil individual.

 

E quando aparentemente “está tudo bem”?

Um bom desempenho académico ou profissional, autonomia ou capacidade para estabelecer relações podem coexistir com dificuldades significativas.

Algumas pessoas desenvolvem estratégias de adaptação ao longo da vida: observam como os outros se comportam, aprendem conscientemente determinadas regras sociais, preparam conversas antecipadamente, estruturam cuidadosamente as rotinas ou controlam a expressão de desconforto em determinados contextos.

Na avaliação, importa compreender não apenas o que a pessoa consegue fazer, mas também o esforço necessário para o conseguir e o impacto desse esforço no seu bem-estar.

O que é visível externamente pode representar apenas uma parte do funcionamento e da experiência individual.

 

Resultados e relatório

Após a integração da informação recolhida e dos resultados obtidos, é realizada uma sessão de devolução, na qual são explicadas as principais conclusões e discutidas recomendações ajustadas às necessidades identificadas.

É elaborado um relatório de avaliação, que integra os elementos relevantes do processo, os resultados, a respetiva interpretação e as conclusões psicológicas.

Quando indicado, poderá ser recomendada articulação com o médico assistente ou com Psiquiatria para integração da informação no processo clínico, avaliação médica, diagnóstico médico e outras decisões clínicas consideradas adequadas.

 

E se os resultados não forem consistentes com PEA?

A avaliação permite igualmente compreender outras possíveis explicações para as dificuldades apresentadas.

Os resultados podem identificar características associadas a outras condições, necessidades de avaliação adicional ou áreas específicas que possam beneficiar de acompanhamento.

Clarificar a origem das dificuldades permite orientar os passos seguintes de forma mais informada e individualizada.

Depois da avaliação

As recomendações dependem das necessidades identificadas e podem incluir:

  • acompanhamento psicológico;

  • psicoeducação;

  • desenvolvimento de estratégias de autorregulação;

  • estratégias para lidar com mudanças, imprevistos e sobrecarga;

  • identificação e comunicação de necessidades e limites;

  • estratégias relacionadas com necessidades sensoriais;

  • acompanhamento de dificuldades sociais e relacionais;

  • adaptações académicas ou profissionais, quando justificadas e aplicáveis;

  • intervenção dirigida a condições coexistentes;

  • articulação ou encaminhamento para outros profissionais de saúde.

 

A avaliação permite compreender dificuldades e necessidades, mas também identificar recursos, capacidades e estratégias que possam contribuir para um funcionamento quotidiano mais ajustado à pessoa.

Compreender pode ser o primeiro passo

Quando existem dificuldades persistentes na comunicação e interação social, necessidade significativa de previsibilidade, características sensoriais ou um esforço elevado para responder às exigências do quotidiano, uma avaliação pode ajudar a compreender melhor aquilo que está a acontecer.

Para a própria pessoa, para familiares ou para quem acompanha alguém com estas características, a avaliação permite obter uma compreensão clínica estruturada do funcionamento e orientar os passos seguintes.

Compreender melhor o funcionamento individual pode ajudar a identificar necessidades, recursos e estratégias mais ajustadas ao quotidiano.

 

A informação disponibilizada nesta página tem caráter geral e psicoeducativo e não substitui uma avaliação psicológica ou médica individualizada.

Quer compreender melhor a PHDA no adulto?

Escrevi o E-book PHDA no Adulto: Guia Informativo e Psicoeducativo: PHDA no Adulto: Guia Informativo e Psicoeducativo

Um recurso de literacia em saúde psicológica desenvolvido para promover a compreensão do funcionamento psicológico associado à PHDA e facilitar o acesso a informação baseada na evidência científica.

O e-book não constitui um instrumento de avaliação ou diagnóstico e não substitui uma avaliação ou acompanhamento individualizado por profissionais de saúde.

bottom of page