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Image by Ashkan Forouzani

PEA
Perturbação do Espetro do Autismo

PEA Perturbação do Espetro do Autismo em Adolescentes e Adultos | Nível 1 de Suporte

A Perturbação do Espetro do Autismo (PEA) é uma perturbação do neurodesenvolvimento associada a diferenças persistentes na comunicação e interação social e a padrões de comportamento, interesses ou atividades mais restritos, repetitivos ou marcados por necessidade de previsibilidade.

Não existe uma única forma de ser ou viver a PEA. As características, capacidades e necessidades variam significativamente de pessoa para pessoa e podem também modificar-se ao longo da vida e em função do contexto.

Em adolescentes e adultos com nível 1 de suporte, algumas dificuldades podem ser pouco visíveis para quem está de fora. A pessoa pode estudar, trabalhar, ter relações, ser autónoma e cumprir as responsabilidades do quotidiano e, ainda assim, sentir que determinadas situações sociais, mudanças, imprevistos ou ambientes exigem um esforço considerável.

Por vezes, é precisamente esta diferença entre parecer que está tudo bem e o esforço necessário para conseguir que esteja que leva à procura de apoio.

Como sé que se pode manifestar no dia a dia?

A PEA não se manifesta da mesma forma em todas as pessoas. Algumas experiências que podem estar presentes incluem:

  • querer estabelecer relações, mas sentir dificuldade em iniciar ou manter conversas;

  • sentir que é mais fácil conversar quando existe um tema ou objetivo concreto do que manter uma conversa informal;

  • ter dificuldade em perceber ironias, sarcasmo, indiretas ou aquilo que os outros esperam sem o dizer claramente;

  • sentir que existem demasiadas “regras não escritas” nas relações sociais;

  • preparar mentalmente o que vai dizer antes de uma chamada, reunião, encontro ou outra situação social;

  • depois de uma conversa, rever mentalmente o que aconteceu e questionar se disse ou interpretou alguma coisa de forma inadequada;

  • não perceber facilmente se alguém está interessado, aborrecido, desconfortável ou apenas a ser simpático;

  • sentir-se mais confortável numa interação individual ou com poucas pessoas do que num grupo;

  • precisar de estar sozinho ou reduzir estímulos depois de períodos prolongados de interação social;

  • sentir desconforto ou ansiedade quando os planos mudam inesperadamente;

  • precisar de saber antecipadamente o que vai acontecer, onde, com quem ou durante quanto tempo;

  • preferir determinadas rotinas ou formas específicas de realizar algumas atividades;

  • ter interesses particularmente intensos ou específicos e dedicar-lhes bastante tempo e atenção;

  • ter dificuldade em interromper uma atividade de grande interesse;

  • reparar em detalhes ou padrões que outras pessoas parecem não notar;

  • ser particularmente sensível a sons, luzes, cheiros, texturas, toque, roupa ou determinados alimentos;

  • sentir-se sobrecarregado em locais com muito ruído, movimento, pessoas ou estímulos simultâneos;

  • ter dificuldade em identificar, compreender ou comunicar aquilo que está a sentir ou de que necessita;

  • conseguir responder às exigências durante o dia, mas terminar mentalmente esgotado.

As dificuldades na interação e comunicação social, a necessidade de previsibilidade, os interesses restritos ou intensos, a dificuldade perante mudanças e as diferenças no processamento sensorial estão contempladas nos referenciais clínicos atuais.

Estas características não têm de estar todas presentes e podem manifestar-se com diferentes intensidades.

Reconhecer algumas delas também não significa, por si só, que exista PEA.

“Mas sempre foi assim…”

As características estão presentes desde cedo, mas  por vezes só começam a ser compreendidas na adolescência ou na idade adulta.

Ao longo dos anos podem ser desenvolvidas estratégias para lidar com situações sociais e corresponder às expectativas dos diferentes contextos: observar como os outros se comportam, ensaiar conversas, aprender conscientemente determinadas regras sociais, organizar cuidadosamente as rotinas ou procurar esconder desconforto e sobrecarga.

Por isso, ter um bom percurso académico ou profissional, ter amigos, estabelecer relações ou ser autónomo não exclui, por si só, a existência de dificuldades significativas.

Importa compreender não apenas o que a pessoa consegue fazer, mas também o esforço necessário para o conseguir e o impacto desse esforço no seu bem-estar.

Na adolescência, algumas dificuldades podem tornar-se mais evidentes quando as relações sociais se tornam mais complexas e aumentam as exigências de autonomia, organização e adaptação.

Na idade adulta, podem tornar-se mais evidentes com a entrada no ensino superior, início da vida profissional, relações afetivas, mudanças de emprego, saída de casa ou aumento das responsabilidades quotidianas.

O que é que significa “nível 1 de suporte”?

A designação nível 1 de suporte é utilizada no DSM-5-TR para caracterizar a necessidade de suporte associada às manifestações da PEA.

Não significa que todas as pessoas com nível 1 apresentem as mesmas características ou tenham exatamente as mesmas necessidades.

Uma pessoa pode apresentar bastante autonomia em determinadas áreas e necessitar de maior apoio noutras. As necessidades podem também variar de acordo com o contexto, as exigências e as diferentes fases da vida.

PEA e processamento sensorial

O processamento sensorial pode ter um impacto importante no quotidiano.

Algumas pessoas apresentam maior ou menor sensibilidade a sons, luz, cheiros, sabores, texturas, toque, temperatura ou outros estímulos.

Um restaurante muito ruidoso, várias pessoas a falar simultaneamente, luz intensa, determinados tecidos ou cheiros que parecem pouco relevantes para outras pessoas podem tornar-se muito difíceis de ignorar.

A sobrecarga sensorial pode afetar a concentração, o bem-estar, a participação social e o funcionamento académico ou profissional.

Compreender estas necessidades permite identificar estratégias e adaptações que podem tornar determinados ambientes mais toleráveis e reduzir a sobrecarga. As diferenças de processamento e sensibilidade sensorial são reconhecidas pela OMS e pelo NICE como características relevantes no autismo.

PEA e condições coexistentes

A PEA pode coexistir com outras condições psicológicas, psiquiátricas, do neurodesenvolvimento ou de saúde física. Por isso, é importante compreender cada pessoa de forma global e não atribuir automaticamente todas as dificuldades à PEA.

Entre as condições e dificuldades que podem coexistir encontram-se:

  • Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA);

  • Perturbações de ansiedade, incluindo ansiedade social;

  • Perturbações depressivas;

  • Perturbação Obsessivo-Compulsiva (POC);

  • Perturbações de tiques ou síndrome de Tourette;

  • Dificuldades de coordenação motora;

  • Dificuldades específicas de aprendizagem;

  • Perturbações ou dificuldades relacionadas com o sono;

  • Dificuldades relacionadas com a alimentação;

  • Epilepsia e outras condições neurológicas;

  • Outras condições psicológicas, psiquiátricas ou de saúde que importa considerar individualmente.

A PHDA, ansiedade, depressão e epilepsia estão entre as condições coexistentes destacadas pela OMS. O NICE salienta ainda, entre outras, ansiedade social, POC e outras condições do neurodesenvolvimento; nos adolescentes considera também PHDA, perturbações do humor, tiques/Tourette, dificuldades de coordenação, aprendizagem e sono.

Algumas manifestações podem parecer semelhantes apesar de terem origens diferentes. Por exemplo, evitar uma situação social pode estar relacionado com dificuldades na interação social, ansiedade social, sobrecarga sensorial ou uma combinação destes fatores.

Da mesma forma, a necessidade de rotinas ou determinados comportamentos repetitivos associados à PEA não significa necessariamente a presença de POC. É importante compreender a natureza e a função dessas manifestações e considerar a possibilidade de ambas as condições coexistirem.

O impacto da PEA pode ser muito diferente de pessoa para pessoa e pode refletir-se:

  • nas amizades e relações afetivas;

  • na comunicação com familiares, colegas ou outras pessoas;

  • na integração em grupos;

  • na interpretação de situações sociais;

  • na gestão de conflitos ou mal-entendidos;

  • na adaptação a mudanças e imprevistos;

  • nos estudos ou no contexto profissional;

  • na gestão da sobrecarga sensorial;

  • na organização das rotinas e responsabilidades;

  • na identificação e comunicação das próprias necessidades;

  • na autoestima e no bem-estar psicológico.

 

O ambiente também importa. Previsibilidade, clareza, estrutura, rotina e adaptação às necessidades sensoriais podem facilitar significativamente o funcionamento, aspetos que o NICE recomenda considerar no acompanhamento de adultos autistas.

Como é que o acompanhamento psicológico pode ajudar?

O acompanhamento psicológico é individualizado e procura promover uma melhor compreensão do funcionamento, das necessidades, dos recursos e das dificuldades de cada pessoa.

Pode ajudar a:

  • compreender melhor o próprio funcionamento;

  • identificar situações associadas a maior sobrecarga;

  • desenvolver estratégias para lidar com mudanças e imprevistos;

  • compreender e gerir determinadas situações sociais e relacionais;

  • identificar e comunicar necessidades e limites;

  • desenvolver estratégias de autorregulação emocional;

  • compreender as necessidades sensoriais e encontrar formas de reduzir a sobrecarga;

  • trabalhar dificuldades relacionadas com a autoestima e o autoconhecimento;

  • desenvolver estratégias ajustadas ao contexto académico ou profissional;

  • compreender e intervir nas dificuldades associadas a condições coexistentes.

O acompanhamento procura desenvolver estratégias ajustadas à vida da pessoa, respeitando as suas características, autonomia, necessidades e objetivos individuais.

 

Quando é que deve procurar apoio?

Pode fazer sentido procurar acompanhamento quando dificuldades relacionadas com comunicação, relações, mudanças, autorregulação, processamento sensorial ou exigências do quotidiano começam a provocar sofrimento, sobrecarga ou interferência significativa na vida.

O acompanhamento pode também ser procurado por quem já tem diagnóstico de PEA e pretende compreender melhor o seu funcionamento ou desenvolver estratégias para dificuldades específicas.

 

Quando existe dúvida sobre a possibilidade de PEA, uma avaliação adequada permite explorar a história de desenvolvimento, as características atuais, o impacto no quotidiano e outras possíveis explicações. A avaliação deve ser abrangente e considerar diagnóstico diferencial e condições coexistentes.

 

Compreender o próprio funcionamento pode ser um primeiro passo para encontrar formas mais ajustadas de lidar com as dificuldades e necessidades do quotidiano.

 

A informação disponibilizada nesta página tem caráter geral e psicoeducativo e não substitui uma avaliação psicológica ou médica individualizada.

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O e-book não constitui um instrumento de avaliação ou diagnóstico e não substitui uma avaliação ou acompanhamento individualizado por profissionais de saúde.

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